E novamente aquela maré fria que gelava até os ossos, o cheiro de água, que se tivesse cheiro seria aquele de medo, de cuidado e loucura. Quando as nuvens tornaram-se tão obtusas, acusadoras, escuras? A noite ainda assim os enredava em uma aura de cumplicidade amiga, e assim talvez pensavam ser invisíveis, como se o mundo não os pudesse ver, como se uma redoma os isolasse de qualquer coisa.
— Estou com água até os tornozelos. — Ele murmurou ainda deitado na areia abraçado a ela. Ela suspirou, pensou, olhou para cima tentando encontrar as estrelas e se remecheu até ficar por cima dele, com os cotovelos em seu peito.
— Talvez... — E fez-se silêncio, até o mar calou-se com um asovio profundo e doloroso.
— Não. — E a voz dele saiu com tanta firmeza que depois ele se arrependeu puxando-a para seu peito e acarriciando seu cabelo.
— Que os anjos não escutem os teus bramidos.
— Me desculpe. — Ele suspirou pesadamente. — Você sabe que jamais será minha, e eu tão pouco teu. Muito tempo passou e continuamos na mesma encruzilhada, rodiados das mesmas pessoas, com os mesmos vícios e manias, as mesmas blasfemias, mas... Ainda que quizessemos não temos nenhum direito sobre nós mesmos, nos giamos pelos mesmos padres, pelas mesmas estrelas e ainda assim temos os signos trocados... E sabe o que mais? Ainda insistimos em ‘nós’.
— Quanta farça não é? — Ela acariciou a mão dele
— Quanta farça meu amor. — E eles riram para não se entregarem ao sentimento de nostalgia que os vinha sondando.
