Havia um garotinho perdido, eu estava lá também, mas não pude enxergar. Ele agarrava seu carrinho vermelho e o desfilava para lá e para cá. Aos pés ele estava passando os dedos na madeira lisa e envernizada, havia verde e amarelo ali, mas ainda assim eu não pude vê-lo lá. Debruçado sobre as velas que queimavam e exalavam seu cheiro quente, ele ficou. Longo o tempo, longas as horas. Precisamos vestir preto, preto é a cor da moda, qual parte ele não entendeu? Precisa colorir sua cara, precisa colorir suas memórias, precisa colorir seus passos no chão. O garotinho pequeno não entendeu, o pai dele nunca levantaria dalí. Garotinho depois de tantos anos foi capaz de entender que seu pai não sairia do campo de margaridas, mas que nós precisamos sair?
domingo, 23 de novembro de 2025
segunda-feira, 22 de setembro de 2025
Primavera dos ipês
O ipê floriu, pela janela eu o via imponente beijando o chão com suas flores brancas. Com o vento ele dançava, ele dançava com o vento. Hoje não há dança, não há música, não há flores. Digo adeus as suas cores. A vida se encerra em um feicho de luz. Caminhamos sempre adiante. Sempre adiante nós caminhamos.
terça-feira, 10 de setembro de 2024
quarta-feira, 15 de maio de 2024
Uma caminhada longa mas preciosa
O início é cheio de folhas secas pelo chão e chuva, tempestade rompendo o céu, raios crepitando. Quando se começa a terapia apesar do inverno cinza que se firmou é necessário acreditar que adiante chega a primavera, que o novo se semeia, se preenche de cor, que a vida brota novamente onde parecia solo infértil, os pássaros voltarão a cantar, e eu sei que eles se calaram, mas eles não permanecerão calados para sempre. É com este sentimento que acreditei que a vida mudaria em mim e mudou, é com este sentimento que acredito sempre quando recebo um novo cliente. Juntos seguimos esta caminhada de mãos dadas.
domingo, 31 de dezembro de 2023
Perdas parentais
Quando um parente se vai, parte de você se apaga, e então se morre um pouco junto. Pois o que determina nossa existência, são nossas memórias, nossas vivências e aquela parte de você esquecida da infância que não se lembra, mas o outro sim evapora como fumaça densa. Cada ano, cada perda mais retornamos ao nada, ao vazio, ao buraco negro da inexistência. Cada ano que passa mais retornamos a nossa verdadeira casa.
sábado, 28 de outubro de 2023
Desejo de expectadora!
Explodindo de dentro para fora na velocidade da luz, vejo o mundo girando alucinado pela janela da sala, e quero entregar-me ao delírio gentil de ser expectadora, mas subitamente sou lançada constantemente como um peão ao centro e escuto a voz que sussurra em meu ouvido: Lute! Lute!
Seria isto minha punição? Questiono, mas a resposta nunca vem e novamente é como o filme que roda mil vezes, me tragando para dentro e dentro até minha aniquilação. Onde estarão os deuses se é aqui que devo estar eu? Violência brilhante caminhando em minha direção, vozes, rostos, gestos, cheiros, gostos. Me fragmento para esquecer que eu permaneço sendo eu, no palco esquisito da existência.
domingo, 19 de março de 2023
Te encontrei...
E o encontrei... entre labirintos criados nos jardins de Versalhes, eu vi seu olhar tão castanho tempestade a bordo, do outro lado. Sem querer atravessei os corredores esquecendo de olhar os espinhos das roseiras, esquecendo de olhar os buracos embaixo caminhei seguindo a lamparina como vagalume achando que jamais se queimará, mas se queimar é inevitável. Só queria dizer... Eu vi você... Eu finalmente te encontrei.