domingo, 29 de maio de 2011

Despertei com uma vontade incontrolável de joga-lo para fora do meu guarda-roupa. Toda a ameaça grosseira de seus toques a primeira gaveta, abrindo o céu de meia noite para o seu único e exclusivo, tão perpétuo desejo. Meio desajeitada o arrastei para fora, sem gritos, mordidas ou pequenas confusões. Sonolenta que estava tropecei em seus tornozelos e rezei para te-lo longe dos meus apertões. Mas esqueça logo, apenas quero-o longe do meu guarda-roupa pelos próximos mil sóis de gelo. Está decretado!

sábado, 21 de maio de 2011

    E... e acontece que te vejo naquela mesma confusão de saltos, sapatos, marionetes equivocadas tropeçando por falhas escadas, perdendo rumo em tortos degraus de vidro, lastimando o rasgado vestido.
   Quando o sol parte e da noite você ridiculamente se torna a verdadeira dona, tencionando dar beijos até no espelho, consumindo a calçada de cal velho que as tuas pegadas já sugou. Juraria estar vendo estrelas febris lhe beliscando os olhos de masoquista que se tornou e a mim também me fez tornar. Talvez nós dois estejamos a nos cobrir do tecido de infelicidade e mentira que nos juraram um dia.
   Mas, verdade seja dita, conheces-te o cabaret, o cabaret  e as cinzas de dias que morriam nos teus frágeis beijos embriagados e não despertavam para um novo dia. Que se esperaria de sorrisos dormentes que se lhe agarravam as faces tão rosadas, tão pálidas, pouco amadas e abandonavam em quem te via toda a desilusão que um dia se poria fim?
   E... E partiste sem os homens que uma noite pálida lhe juraram amor sublime, amor eterno, sepulcro mais tarde descobririas, quando os fantasmas se lhe tomassem o corpo enrugado que se contorcia em espartilhos apertados, e o coração teu riscassem com rosas fúnebres a mão.
   Toda não serenidade que me trazias, teu batom carmim enferrujado das velhas ondas de maio, tua risada ardida e comovente que volta e meia me suplicavam uma última dança. Querida nossa falta de perfeição juntos tão febril que nos enredava em tropeços de pés descalços e terminava em soluços amargos de adeus.
   Todo eu, toda você que partiria mais cedo ou mais tarde sem nada dizer verbalmente e as marcas nos cravaria na alma aturdida, devemos convir que não deixaríamos nada, nada a dizer, a contar, a burlar. Não, não deixaríamos, nem o cigarro que se partiu em teus lábios. Não de verdade que eu esteja equivocado, pois quando se parte se parte sozinho. E um certamente sozinho fica, embora nunca junto estivesse. Viste em que confusão me metes? Pois estava eu falando dos teus saltos e agora já nem sei do que falo.       
                Antonio Bloodmary

terça-feira, 17 de maio de 2011

Todos estão se odiando lá fora, e eu sei, também estou me odiando aqui dentro. Estão tapando janelas com persianas, afogando suas flores em vasos e dilacerando um ou outro cravo por pura diversão.
Meus pés sacodem-se no ritmo desgovernado de ladrõezinhos de pouco.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

É mais fácil estar equivocada na minha própria lucidez, mas não, eu nunca vou estar sóbria. Se me debruço em parapeitos e me atiro de janelas sem vidro, se quebro costelas e unhas com beliscões, é porque da vida já estou enjoada. E se faço todas as coisas que faço é por simplesmente não achar sentido algum.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

De todas as coisas certas, certamente que não fiz nenhuma, e continuou não as fazendo, elas me entendiam facilmente.

domingo, 1 de maio de 2011

O mundo congela quando os lábios mudos ficam. Olhos não deviam quebrantar-se na espuma fria do mar nem mãos tremerem sobe o céu torpe de sorrisos frouxos. Por isso nos calamos consentidos que acreditar ou não acreditar em palavras não ditas é o pior dos erros cometidos. Pobres amadores!