terça-feira, 8 de junho de 2021

Acordei

 Depois de tanta escuridão, depois de tantas trevas eu posso ver a luz do sol. Caminhei sem rumo maltrapilha por lugares que ninguém desejaria visitar, vi a face da dor e seus olhos me incendiaram e quando a chama se apagou eu me vi em seu sorriso amargo em seu âmago, era eu, era eu e mais ninguém. O pesadelo vai ficando as minhas costas ainda que eu o possa enxergar, ele não se esqueceu de mim e eu não esqueci dele, mas hoje lhe dou as costas.

Das coisas que eu aprendi quando veio as tempestades

 Sendo criança por mim mesma eu não tinha pernas, não tinha voz, não tinha nada, nenhuma proteção me alcançaria, pois eu nada sabia falar mesmo que eu soubesse as palavras não ocorriam e nada chegava a consciência além da paralisia, da infelicidade latente, da vontade de não me envolver com nada nem ninguém, de não existir, não em um mundo que me era estranho e onde coisas estranhas me ocorriam. De alguma forma e ainda que isto soe estranho, a morte me trouxe sorte. Não sei bem o quanto houveram mãos espirituais de terceiros no imbróglio da vida, mas coisas piores poderiam me suceder, seja lá o que seja isso. 

Sendo adulta por mim mesma tenho minhas pernas, tenho minha voz, eu tenho a mim mesma e não preciso de mais nada além. Ainda que a dor me atormente e me lance me dilacerando de dentro para fora como arma secreta de inimigo na guerra, ainda assim, eu posso agora me proteger e dizer finalmente: Não!

Fecho algumas portas e me distancio finalmente. Só será meu o que for bom, o que for mau eu lançarei ao fogo quantas vezes forem necessários até que pereça. 

Sou forte, sou eu e estou viva de agora em diante até que a morte me separe de mim.