Junto com a fumaça do cigarro,
também subia aos céus seus pensamentos cinzentos. Tinha cheiro do que era antes
dela, tinha cheiro de quando era apenas ele e isto bastava para todos os
propósitos. Porque não gostava então mais de quem era quando não estava com
ela? Suspirou pesadamente de cabeça
baixa, murmurou seu nome junto a um palavrão pesado, pois sabia que ela iria
seguir, e ele deveria não estar nem ai. Levantou-se agitado, com a camisa
branca quase flutuando no ar, e percorreu trilhos de trem abandonado, chutou
pedras, e talvez a si mesmo, resmungou.
Lembrou do ódio que sentia pelo
olhos brilhantes, de cores absurdas jogadas na confusão de um olhar distante e enigmático,
do contorno marcado dos lábios dela, e do sorriso irônico que dava a cada frase
que lhe escapava pela boca, dos passos atrapalhados, quando se calava, quando
mentia, quando escorregava de forma sombria dentro de si, quando se ativara sem
medir consequências dentro de abismos de mentira.
Com a bituca na ponta dos dedos
deu uma última tragada antes de se despedir de si mesmo, antes de se despedir
dela, antes de se tornar um novo estranho seguindo por passos diferentes e
admirou a fumaça subir, sabendo que lá também estava.

