Quando
tudo estava próximo do fim eles vieram. Havia gemidos, murmúrios e lamentações,
pois a catástrofe havia a muito se implantado como um verme até o osso
corroendo insaciável. Muitos já haviam partido e os que restavam não durariam
por mais de um dia.
O
mundo queimava, ardia e nós sabíamos. Isto não era o apocalipse, isto tratava-se
apenas de nós, o que havíamos feito, escolhas, decisões e nossa luta
interminada contra a nossa pobre natureza hostil, a mesma que nos havia mantido
e nos assegurado a ir tão longe em nosso tempo de existência enquanto raça
humana era a mesma que com sua mão
pesada nos apunhalava com o nosso egoísmo e hostilidade inerentes.
Eu
penso sobre os dias passados, na campina, no prado, em um botão de flor a
desabrochar, na água límpida correndo para dentro de minha garganta de modo agradável,
o cheiro de terra e poeira quando despencava a chuva depois de dias de
estiagem, o azul do céu durante os dias de verão, as risadas, mas que tudo as
risadas e sorrisos, pois não víamos um há muito tempo agora. O que havia
ocorrido conosco? Questiono-me, quando ergo minha cabeça não sou eu quem está
fazendo a pergunta, eu sei de algum modo que esta voz aqui dentro não me
pertence e sim a grande figura a minha frente.
Ninguém
havia se dado conta, mas lá estavam eles. Perturbadoramente diferente, que
nossa primeira impressão é tentar nos proteger. Quem podia se escondia, quem
não podia apenas fazia como eu agachava-se no chão quase que pedindo clemencia.
Sempre fomos estes que jamais suportariam diferenças, que crucificávamos o que
fosse muito diferente de nós. Por quê? Eu penso que sempre tivemos medo, um
medo irracional. Do que? Não sei, aniquilação? Não era tudo para isto? Algo
sobre passar genes adiante, ter crianças que terão crianças, que terão
crianças, que terão... Não tínhamos nada. Não protegíamos estas mesmas
crianças. Estávamos perdendo tempo? Perdendo a nós mesmos. Se Eles viessem em
outro momento nós os atacaríamos com todo armamento possível sem questionar-lhes
qualquer coisa, era o que nós fazíamos, sempre foi, pois matávamos irmãos, matávamos
a nós mesmos, extinguíamos tudo ao redor, como a droga de uma erva daninha. Não
por nada, mas porque de algum modo mesmo com olhos éramos cegos, mesmo com
cérebros pensantes, éramos incapazes de pensar, mesmo com mãos atuantes, éramos
incapazes de parar. Se merecíamos uma nova chance? Apenas faça-o, faça-o antes
que eu me arrependa de ter dito. Faça logo, antes que aja uma oportunidade
verdadeira de salvação. Faça-o antes que Deus se ele existir em algum lugar nos
veja e nos odeie por quem nós somos tanto como nós mesmos nos odiamos entre si.
E
então quando os seres de fora, não convidados, definitivamente não convidados,
pois aquela Terra não era hospitaleira, prepararam-se para fazê-lo ouve um
grito agudo, o meu grito. A natureza em mim, minha pulsão de vida estaria
falando alto agora, e eu apenas imploro não o façam. Não o façam. Salvem-nos,
por piedade, não nos deixe apodrecer e definhar em nossa própria sujeita.
Quando percebo em minha reza silenciosa, já não há nada diante de nossos olhos.
Acaso tudo havia sido um sonho poeirento? Um delírio de salvação? Pois eu sigo aqui
martelando os meus espinhos até o fim, iminente, alastrante, degradante, esperando uma coisa, qualquer coisa. Significado!
Nenhum comentário:
Postar um comentário