Capítulo 1
Se eu não estivesse fugindo tanto por tanto tempo... Mas, chega uma hora em que não há mais chances de se voltar atrás, não há redenção para "os perturbados". Não há migalhas de pão que me façam voltar ao caminho.
Não era uma história de romance, não creio que tenha a ver com amor, tão pouco me atrevo em chamar de pequena histórinha de ódios internos, não, não tinha haver com fugas continuas, mas talvez tivesse a ver com liberdade, a minha liberdade, a liberdade que eu não permitirei que me roubem ou usufruam dela sem mim.
Mamãe... Ora, mamãe e seu olhos perdidos. Quando ela encarava o céu, suas feições adquiriam cores mais pálidas que o normal. Eu não sei para o que ela olhava, ou o que via ao certo lá em cima ou lá em baixo, apenas sei que ela tinha aquele maldito jeito ausente que tanto me incomodou ao longo dos anos. Eu queria gritar, e xingar, fazer com que por uma unica vez ela me visse, não como o menininho calado, não como uma sombra, mas como seu filho, Kurt. Eu estava ali e não era invisível. Mas pensando agora, não haveria nada que eu pudesse fazer para mudar isso, as pessoas simplesmente enterram vivas umas as outras, sem caixão, sem cova, sem a poeira das pedras a tilintar na cabeça.
O "grande progenitor", meu "pai", era só o homem que não estava muito em casa, e quando estava eu preferia não estar. Ele era apenas o maldito infeliz que voltava bêbado para o "lar" e se debatia no chão como um peixe fora d'água, que descontava sua aflições na minha mãe e as vezes em mim. Eu queria arrancar sua vida com minhas próprias mãos, mas quando pensava nisso meu corpo inteiro se sacudia em uma convulsão incontrolável, não conseguia pensar direito, meu estômago remexia e eu queria vomitar no carpete fedido da sala de estar, ou melhor no carpete nojento do pequeno cubículo do trailer onde éramos obrigados os três a nos suportar. No final eu tinha medo do velho, um medo que me consumia os ossos, que eu não podia sequer pensar a respeito, eu pensei que não fosse aguentar... O teto sempre desabava de forma cruel sobe minha cabeça.
A escola nunca foi fácil, era a sobrevivência dos que melhor mandavam, dos leões enfurecidos, da matilha de lobos raivosos. O primeiro lugar em que se aprende como o mundo pode ser cruel, o lugar onde os rios se dividem e as fronteiras se alargam. Passar ou não passar? Eis a questão. Garotos estúpidos, brincando de ser pequenos Deuses.
Eu tinha 7 anos quando me apaixonei pela primeira vez. O nome dela era Nancy, e tinha cabelos castanhos, na verdade não consigo e me lembrar muito bem que como ela era, me recordo bem que ela dividia o cabelo no meio e usava maria chiquinha. Eu Puxava suas transas até que ela começa-se a gritar implorando que eu para-se. Eu não parava! Quero dizer, até a professora aparecer do nada e sair me arrastando para fora da sala dizendo que ligaria para minha mãe. Também foi com a mesma idade, 7 anos que eu sofri minha primeira desilusão amorosa. Em mais uma tentativa de chamar a atenção de Nancy, algo deu errado. Masquei e masquei vários chicletes cor de rosa formando uma imensa goma até que eles perdessem todo o doce. Cuspi-os na palma da minha mão e corri em busca de Nancy, quando a encontrei me esguerei por entre os brinquedos do parquinho e esfreguei a mão com a goma em seu cabelo, de alguma forma o chicletes espalhou para metade de seu cabelo e ela começou a chorar e berrar. Quando me dei conta um garoto, quase anormal de tão alto, que nem sequer deveria estar no primeiro ano apareceu, fazendo sombra no chão.
Meus sentidos gritaram: Perigo, perigo! Ele me agarrou e me colocou de cara de encontro a areia do parquinho, eu sentia o cheiro nojento de xi xi impregnado, entrando pelas minhas narinas, e a força que eu fazia para não engolir aquela coisa nojenta de pedrinhas. Eu estava lutando para me libertar, mas o brutamontes apoiava seu joelho gordo nas minhas costas, eu já estava com dificuldades de respirar, e sentia que seria o final, quando escutei a voz da professora estridente atrás dele.
— Solte ele Gregory.— Ela gritou e senti todo o peso sair de cima de mim. Estava me sentindo uma pasta de amendoim depois que um elefante senta em cima. Nem me mexia. A professora com toda sua "delicadeza" habitual me puxou para cima como se eu fosse uma mola. Não preciso dizer que fui expulso da escola, a primeira de várias expulsões, foi onde se iniciou o ciclo, ou talvez ele já houvesse se iniciado a muito tempo. Quanto a Nancy, disseram que tiveram que cortar seus longos cabelos que desciam até a cintura, bem em todo caso eu nunca mais a vi e se a vi não reconheci.
Mundo de lobos e demônios. Era só o começo. Quem eu era? Ora lobo, ora demônio, era a fama que me construía.
Nenhum comentário:
Postar um comentário