domingo, 19 de setembro de 2010

Eu e o silêncio da noite

 Capítulo 2


       Puxar para baixo, rasgar, morder, derrubar. Apenas velhos conceitos. Quando se está em cima, não quer estar em baixo, mas quando está em baixo quer estar em cima. Hierarquias. Tudo se trata de Hierarquias.
      Quando era criança adorava caixas de papelão, eu as pegava no supermercado ou em alguma vendinha próxima e as levava para o jardim de casa. Elas precisavam, ser realmente grandes. Eu fazia buracos dos lados para as janelas e cortava portas com o canivete que roubara do meu pai. Pegava vassouras e lençóis velhos para fazer a fachada. Eu ficava lá durante horas, ninguém nunca se deu conta de meus sumiços. Eu inventava jogos, fazia pequenas guerras com bonecos que eu pegava dos garotos da escola quando estes estavam distraídos, ou quando se cansavam deles, bem eles enjoavam dos brinquedos, não poderia dizer que era uma espécie de furto, não era.
     Meus pai gastava todo o dinheiro que tínhamos. Minha mãe fora aposentada por invalides quando sofreu um acidente de serviço caindo de uma escada e  fraturando seriamente uma das mãos, por isso ela não conseguia fazer serviços pesados. Tínhamos os dias com dinheiro, onde comíamos rasoavelmente bem, e os dias sem dinheiro, no qual não possuíamos nada ou quase nada para comer. Para matar a fome eu ia até a vizinha, uma idosa de 60 anos mais ou menos, ela vivia sozinha, o marido havia morrido a muito tempo e os filhos não a visitavam com freqüência. Ela fazia bolos, tortas e pães como ninguém e parecia realmente gostar de minha companhia.
      Com dez anos, três fugas de casa, e duas expulsões de escolas no currículo, eu partia para aumentar os números.
 Vá para o inferno imbecil.— Gritei. O pequeno bando de Marcos se alvoroçou ao meu redor, eles eram seis anos mais velhos que eu. As cartas estavam na mesa:
a) Ter o rosto partido ao meio e ter de mudar o nome enquanto fujia de casa.
b)Não bancar o espertinho e pagar o que devia.
Não, eu não era mal nas cartas, eu era incrível, roubando ou não, mas era muito pouco prático, tinha um grande ego e pouca cautela isso me tornava um estúpido tapado.
— Você vai pagar o que nos deve.— Gritou Marcos fechando a mão em punho.— Você roubou nas cartas, pequeno ladrãozinho, verme maldito. — E daí que eu havia roubado naquelas malditas cartas? Eles também não roubavam? Leis iguais para todos. A verdade era que eu apenas queria impressionar os idiotas para pertencer ao seu maldito grupinho mas descobri tarde demais que eu era apenas um lobo solitário. Isso significava não bancar o palhaço retardado para os maníacos esquizofrênicos.

— Eu não tenho dinheiro.— Reclamei encolhendo os ombros. Marcos coçou o queixo que mal tinha barba.

— Eí, está vendo aquela vendinha ali. Ele apontou para um armazém de esquina. Você vai entrar e pegar um maço de cigarros e algumas cervejas pra gente.— Os animais uivaram em sincronia. 

      Eu tremia da cabeça aos pés quando empurrei a porta de vidro e me concentrei no que tinha que pegar. O vendedor parecia me observar com desconfiança e me seguir com os pequenos olhos. Talvez fosse coisa da minha cabeça. Fingi estar distraido com alguma coisa, olhei para tudo, calculando. Vi as cervejas de longe, minhas mãos ainda tremiam e eu tive medo de fazer alguma burrada. Ajeitei a mochila nas costas  que já estava parcialmente aberta com todo meu material escolar dentro e todo cauteloso joguei uma garrafa dentro da minha bolsa. Faltavam os cigarros, mas só vendiam no balcão. Ali estavam.




— Eu preciso de tesoura e cola pra um trabalho... E cartolina também.— Me apressei em dizer.



— Nós não vendemos isso aqui garoto.— Eu apanhei o maço e joguei-o dentro do bolso da minha calça jeans e caminhei em direção a saída.





— Ei garoto, devolva o que pegou.— Meu sangue congelou, e senti medo de minhas pernas travarem de medo, então corri, corri o mais rápido que pude, mais rápido do que pensei que pudesse correr. Esse foi o primeiro roubo. 

   Que fique claro que eu não roubava por prazer, as situações sempre me levavam a faze-lo. De uma forma ou de outra eu estava ali, e  não estava. Não tinha nenhuma noção de tudo o que viria a acontecer nos anos seguintes e tinha medo de pensar sobre isso. Estava apenas perdido na selva de pedra que se formava ao meu redor.




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