terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Primeiro maço

 Com orgulho expus meu primeiro maço de cigarros na mesa ao lado de um copo de cerveja, eram azuis como seus olhos e mentirosos como a tristeza. Suguei para dentro de mim uma e outra vez, mas não eram mentolados, apenas fumaça entrando e saindo para fora de meus pulmões com cheiro de gente familiar que eu revivia a cada tragada. Por um momento me torno ele, tenho seu cheiro tenho seu gosto, talvez seja dissimulada enquanto olho ao redor para rostos inteiros, mas vazios, talvez seja manipuladora como Ares prevendo uma guerra, talvez seja tudo menos o principal... Eu. Me tornei sim um pouco ele quando engoli para dentro de mim aquela esfera de destruição, como se fosse o caos, empurrei pela minha garganta sentindo rasgar, esperando me explodir em milhares de pedaços pequenos incapazes de serem juntados novamente. Sim, eu engoli, ou escolhia a dor desta morte ou escolhia me tornar mais forte que a destruição e ser eu mesma destruição, nem que seja para mim mesma para não dar o direito a ele de faze-lo. Eu reclamava de sua fumaça com medo de ela o levar para longe de mim como já me havia levado alguém, eu reclamava de sua fumaça, pois te queria respirando o mesmo ar que eu dia após dia, fui tola. Fui tola porque enquanto me preocupava demais com ele, ele não se preocupava nenhum pouco comigo, escolhia me aniquilar e aniquilar apenas pela força do seu desejo e pela sua incapacidade de controle. Mantenha suas calças fechadas! Era tão difícil assim? Pela culpa que carregava me fez sentir culpada, todo o tempo, o tempo todo até o fim, nessa tortura lenta que foi o nosso amor. Tantas vidas e mais uma para sua cota, para a nossa cota de dor, carregando montanhas com medo de se arriscar, rasgando e tropeçando, absorvendo, sorvendo, tropeçando, errantes, errados, tanto, tanto, tanto... Te dei um título, o chamei Bei, como os turcos o chamam, lhe dei, me dei entre palavras sujas e suadas, entre irreverência e dor para vê-lo  sorrir, cuspindo seu ser em mim, te envolvi em mim naquela dança, sem dança alguma, sem ritmo certo, com passos incertos, mas achando que era o certo e que no mundo não existia maior certeza do que a nossa, do que nós. A certeza se desfez, ela veio ruindo e ruindo como as cinzas do cigarro que jogava naquele cinzeiro transparente cheio de restos, me tornei também resto. Acabou... Eu fiquei naquele mesmo cômodo de quarto vazio onde nos dissemos amor e onde tudo se desmanchou escutando esta palavra em eco, a musica parou, só isto restou. Acabou!



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